Vamos ou não vamos para um segundo resgate?

Esta pergunta não faz qualquer sentido. É óbvio que vamos para um segundo resgate e muito provavelmente para uma reestruturação da dívida no seu aspecto global. E por que é que eu faço esta asserção, visto que não é nada de novo pensar nestas coisas?

Qualquer pessoa atenta aos meios de comunicação já tinha apercebido que existe um ataque afincado às economias dos países chamados semi-periféricos, tendo para isso um acrónimo muito pejorativamente elaborado – os P.I.I.G.S., para designar a operação de liquidação. E uso o termo ‘liquidação’ no duplo sentido. Liquidação da soberania nacional (clássica), na maneira em que temos uma suspensão dos direitos constitucionais e da democracia enquanto originária do próprio país, isto é, da capacidade do país com um certo tipo de representantes de elaborar os seus códigos e de falar a sua ‘voz’. E liquidação financeira, no sentido económico em que um determinado activo é convertido em liquidez económica, por norma em dinheiro.

Ora se existe esta operação económica com o nome de código ‘P.I.I.G.S.’, nós, comunidade politico-ecónomica portuguesa, devíamos ter interpretado esse ataque como tal e proporcionado uma resposta à altura. Mas não! Andámos a brincar aos PEC’s, e continuamos com os FMI’s, as troikas, as Greves Gerais, os cortes e impostos, etc., etc., etc., a pensar que podemos ‘acalmar os mercados’. Mas quão ingénuos podemos ser?

‘Acalmar os mercados’? Mas os mercados andam excitados? Andam os mercados a adoptar comportamentos bipolares, e precisam de medicamentos como Prozac (a.k.a. cortes na economia e nas despesas de um país) para acalmarem? E quem são esses ‘mercados’? Já alguém conseguiu falar com os ‘mercados’?

Provavelmente ninguém ainda conseguiu falar com Eles, visto que são muito instáveis economicamente. Ora, se são muito desequilibrados a nível emocional, (têm complexos, não sei se de inferioridade, de sexualidade, ou sei lá!) não são assim muito racionais, não é? E se não são racionais, por que é que estamos preocupados com a sua opinião?

A analogia pode ser traçada com um relacionamento (dis)funcional em que, numa relação a dois, um dos parceiros tem problemas psicológicos, e se tenta argumentar racionalmente uma determinada solução, quando apenas do outro lado está alguém que apenas reage emocionalmente, maniacamente, paranoicamente, e até possessivamente.

É o que os políticos de Portugal, e não só, andam a fazer. A tentar argumentar racionalmente com alguém que é maníaco.

O pior deste cenário são os políticos, e agentes mediáticos em geral, a continuarem a tratar ‘os mercados’ como agentes actuais! Não há alucinação mais completa do que esta, do que tratar um meio de comunicação generalizado como agentes com intencionalidade! Isto é de uma ingenuidade impressionante!


O que significa ‘fazer a diferença’?

Não consigo escapar à efeméride comunicativa sobre a manifestação da ‘Geração (à) Rasca’. Mais ainda porque há cerca de um ano, no pico comunicativo do acontecimento mediático, escrevi sobre a mesma no post, Algumas considerações sobre a etiqueta ‘Geração (à) Rasca’.

Em quase tudo a minha opinião mantém-se igual à desse post. Mas está na altura de ir mais longe nesta conversa.

Primeiro. O fenómeno da ‘Geração (à) Rasca’ marcou um ponto de viragem nas estruturações coletivas de intervenção ou manifestação pública de carácter online. Isto é, através de articulações sincopadas e sequenciadas em ‘redes sociais’, foi possível convocar, num primeiro momento, a aglomeração de várias pessoas, num segundo momento, na provocação de um evento mediático e cultural, isto é, torná-la evento comunicativo, e num terceiro momento, na organização coletiva em forma de manifestação de rua.

Este tipo de fenómeno tornou-se mais amplo e reconhecido na chamada ‘Primavera Árabe’, principalmente no início revolucionário no Egipto. Mas continua no meu ponto de vista, a ser olhada como sorte, ou acontecimento contingente. Isto é, ainda que eventos de algumas ONG’s, estou a lembrar-me da última sobre Kony 2012, baseados numa perceção muito clara de marketing social, é necessário perceber o tipo de intervenção cívica, num contexto comunicativo económico – e isto é que é importante – se pôde ‘mostrar’ (termo técnico) a quem realmente controla o poder económico comunicativo. Isto é, chegou a um momento em que foi impossível o poder comunicativo ‘olhar para o lado e assobiar’ como se não fosse nada.

Contudo, e este é o segundo ponto, tudo se esvaneceu em menos de um mês, tendo só sido agora recuperado, por motivo de efeméride, e logo, de acontecimento ‘historicizado’, isto é, inócuo para os dias de hoje mas como um curiosa recordação do passado.

No meu ponto de vista, a ‘Geração (à) Rasca’ estava desde logo condenada à irrelevância político-económica. Não só porque os argumentos eram fracos, mas também porque a sua visão do futuro passava necessariamente pela fição da ‘vitimização’.

A pressuposição era ‘ Isto é um contrato. Nós aceitámos o correspondente modelo ideológico de progressão social linear de ‘mercado de trabalho’, para vocês (governo, empresas) no final desse percurso, nos darem emprego. Nós fizemos a nossa parte. Façam agora a vossa!’ Isto quanto a mim era estar a jogar em puro efeito. Nunca em causa.

Não foi explorada realmente a oportunidade de iniciar uma transformação coletiva. Ou em termos marxistas, uma revolução na sociedade ideologicamente dominada por uma fição de ‘mercados de trabalho’!

Qual foi a consequência direta. Foi apenas o de fazer surgir na comunicação o advento comunicativo do ‘grande génio português’. Uma versão romântico-neoliberal das capacidades extraordinárias dos nossos concidadãos em vários projetos de caráter artístico e económico. E isto estava a fazer falta, é certo. Mas veio em reação. Mais uma vez, efeito!

Mas qual é o caminho? Bem, não me considero a pessoa ideal para indicar qual é o caminho. Considero-me sim, uma das várias pessoas que permite re-colocar a conversa num ponto de vista da TRANSFORMAÇÃO. Por outras palavras, é necessário contribuir para uma nova conversa sobre transformação, isto porque a dor, a frustração e o medo começam a surgir, já não como sintomas, mas como chagas na nossa comunidade, na qual surge uma altura em que é impossível não responder a!

O meu simples apelo é: Junta-te à Transformação!

Bem haja!


Somos todos filhos da pirataria

Cada vez mais cresce o debate entre quais os desígnios económicos dados à política e os desígnios políticos dados à economia. Isto é, cresce no fundo o debate sobre que desenho de selectividade se quer estruturar e implementar nas dimensões sociais.

Os com-bates entre as selectividades neo-liberais, capitalistas e comunistas prometem cada vez mais aquecer o panorama mediático, mas não só. Aproximamo-nos, defendem vários autores, do tipping point (utilizando a expressão de Malcolm Gladwell), onde uma transformação terá de ser operada dentro do sistema auto-referencial. Dentro destes com-bates uma das questões é se o sistema capitalista está morto (ou está em vias de morrer)?

Qual é a pressuposição desta pergunta? Bem, para a podermos fazer, temos de aceitar que o esquema capitalista está em falência (pun) e é necessário um novo esquema de selecção. Mas esta pressuposição remete para uma nova selecção diferente do capitalismo, e admite que até agora que só o capitalismo, no sentido neo-liberal pós-Muro, se manteve activo. Mas se olharmos realmente para a actividade produtiva das partes económicas observamos certas inconsistências e contradições, precisamente no esquema capitalista que o mantêm e o alimentam, fazendo parte da sua auto-reprodução sistémica.

Quero apenas centrar-me no fenómeno da pirataria em relação àquilo que se designa de ‘propriedade intelectual’.

Um determinado tipo de indústria promove a acumulação de capital através da capitalização da propriedade intelectual sobre um determinado produto. A propriedade intelectual aparece no momento em que importância de produtos desmaterializados aparecem ao sistema capitalista, e ao qual este tem dificuldades de colocar um valor de trabalho em algo que se desmaterializa-se.

O problema é que precisamente a desmaterialização juntamente com as revoluções tecnológicas das últimas quatro décadas, coloca o produto à disposição de quem possui a tecnologia apropriada para utilização do produto. Neste tipo de meio de produção a sua característica de iteração do produto passa a ser uma das fontes da capitalização do mesmo.

A pirataria veio destruir esta característica. A pirataria ‘pegou’ no produto desmaterializado e colocou-o à disposição, pendente do acesso tecnológico de uma larga comunidade sedenta de consumir esse produto, mas sem possibilidades (ou desejo) de pagar o valor intelectual dele.

Há quem defenda que esta característica é a subversão do sistema capitalista. A destruição da propriedade privada, em favor da propriedade pública.

Contudo penso que esta situação apresenta apenas uma contradição do próprio sistema económico capitalista. Basta para isto verificar em relação aos produtos mais pirateados, ao mesmo tempo, a sua capitalização e popularidade. Um exemplo, o sistema operativo Windows, nas suas várias versões, não é de todo um fiasco capitalista, muito pelo contrário (chegou mesmo a ser um monopólio contemporâneo), contudo arrisco-me a afirmar que terá sido um dos produtos mais pirateados de sempre.

Por isso, para aqueles ingénuos que andam a tentar promover políticas capitalistas de caça à pirataria, são dogmáticos de um sistema pretensamente económico do valor respectivo pela reposição do produto. Contudo, este fenómeno faz parte do circuito capitalista, com todas as consequências que isto apresenta.

Na minha perspectiva, neste momento somos todos, TODOS, filhos da pirataria. Duvido seriamente que alguém nunca tenha usufruído da ‘pirataria’ para acesso a algum produto. E vou mais longe. Falando pessoalmente, se não fosse a pirataria eu não teria tido acesso a produtos e informações, que de outra maneira, na relativa posição geo-económico-social que me encontro (e a maioria das pessoas em Portugal se encontra), nunca teria tido acesso.

Isto coloca imensos problemas. Primeiro, a ideia de que nós todos estamos, não a subverter o capitalismo das indústrias que se baseiam na propriedade intelectual, mas a ser componentes num circuito sarcástico do próprio sistema capitalista. E segundo, mesmo dentro deste circuito, a suposta defesa comunista ou social da pirataria, além de não perceber a contradição do capitalismo, não percebe que mesmo a usufruição de produtos pirateados não acrescenta, e sublinho, NÃO ACRESCENTA, nada à inteligência ou capacidade intelectual das pessoas que a têm consumido, nem demonstra a tese da subversão do cpaitalismo.

Devemos pensar nisto.

Deixem a vossa opinião nos Comentários. Bem haja!


Peregrinações, Fátima e FMI

Percebo o que está por detrás de uma crença; nomeadamente de uma crença religiosa. E percebo também a motivação de quem possa ter essa crença religiosa sobre, e através, das coisas que fazem.

Contudo, aquilo que quero sublinhar é o facto de nas coisas que fazem, no que respeita às religiões do Livro, têm por regularidade uma forte componente de martírio pessoal, está bastante evidenciado. Assim faz sentido as peregrinações.

Ora, as peregrinações contém sempre dois componentes: uma promessa e o ato de pagamento da promessa. A promessa é algo de pessoal. Algo que ‘eu’ queria para um determinado momento, e que após o receber, então terei de pagar aquilo que adquiri, sob a pena de ser penalizado se não o fizer. Ora, parece óbvio que o ato de pagamento da promessa envolve sempre uma maneira martirizante de o fazer: pode ser ir a pé, ou se isto não for suficiente, ir de joelhos, até ao local de peregrinação, por exemplo; terá de ser alguma coisa exigente, nomeadamente exigente do ponto de vista físico.

Agora, peguemos neste enquadramento e coloquemo-lo no quadro de referência económico-financeiro. As justaposições são óbvias. Nós queremos algo de pessoal e pedimos a quem de direito, neste caso a uma entidade financeira, os meios para ter o que quero. Logo a seguir, ao ter o que quero, terei então de cumprir o pagamento, mas se esse pagamento não for de extrema dificuldade física, então nada melhor do que voltar a pedir algo e comprometer-se com outro outro de pagamento. Esta sequência pode ir recorrentemente, até de facto o ato de pagamento ser árduo, difícil e aniquilante para a sua forma física, e neste caso também, psicológica.

Este ciclo pode ser feito em qualquer estrutura social, desde o indivíduo que contrai créditos para consumo, até ao Estado que contrai dívida soberana. O objetivo é o mesmo. Não a gratificação de obter aquilo que ‘quero’, mas a gratificação de poder, finalmente (!), exercer o ato religioso de expiação.

Esta disposição, de expiação, parece estar enraizada em nós, e isso vê-se em todos os níveis, mas com mais ênfase agora com a problemática da troika e dos seus milhões. Nós queremos essa expiação, nós queremos sofrer por aquilo que pedimos pera proveito pessoal.

Sublinho, ‘todos nós’. Eu incluo-me neste grande pântano de disposições acerca da expiação. Ora, se gostamos disto, não deveríamos estar chateados com o Memorandum da troika e as suas medidas ‘austeras’, deveríamos sim regozijar e começar a antever as possibilidades de nova expiação. Pois isto parece-me pouco.


Design economicamente domesticado [~4min]

O design em Portugal, em termos teóricos, anda moribundo, sem qualquer sentido ou noção para onde vai. E anda muitas vezes a reabilitar discursos já feitos e remoídos vezes e vezes sem conta. Já não existe as discussões apaixonadas e as figuras de relevo e suas teorias, os seus debates ideológicos, que implicavam a sua paixão ou o seu ódio.

O meu diagnóstico é que o design se tornou economicamente domesticado, e a teoria do design deixou-se ficar por apresentações de ‘próprio-teorias’ (‘próprio-‘ significando um sujeito, ou instituição, ou atelier, etc.) em terreno circunscrito, ou de deambulações privadas (como esta), ou de discursos de vendedor de um determinado serviço. Deixou de haver os debates pontuais, ao qual a criatividade fluía nos seus respectivos produtos (poiesis), e desapareceu as preocupações associadas a esses debates. Leia o resto deste artigo »


O lucro é salutar ao ‘bom design’! [~2min]

No interessante artigo, El lucro distorsiona el buen diseño, do website da FOROALFA, Santiago Williams censura a atitude dos designers, e também da publicidade, de se preocupar apenas com o dinheiro, esquecendo-se das bases do ofício. E qual é essa base? A de que o design ‘é uma actividade humana, que tem o objectivo de encontrar uma solução criativa para uma necessidade de comunicação’ (“Es una actividad humana, que tiene el fin de encontrar una solución creativa a una necesidad de comunicación.”). Leia o resto deste artigo »


Veste, designer, veste! [~ 1min]

Estamos numa época económica extremamente difícil, o que se traduz em épocas emocionais bastante depressivas, principalmente para designers, (e também para filósofos). E porquê? Em grande parte devido à natureza do design enquanto actividade económica, isto é, o design é uma actividade extremamente dependente de outras actividades. Leia o resto deste artigo »


Dos resultados ‘pós-licenciatura’ [~ 2min]

Quando escrevi a “Eulogia aos ‘designers da vida real’” o meu objetivo era descrever, confesso que de forma um pouco apaixonada, um determinado estado de coisas que parece estar invisível a muitas pessoas. Por isso é compreensível algumas reações que me foram apresentadas. Muitas de apoio, outras de crítica. Ambas, no meu ponto de vista, são verdadeiras.

Vamos por partes.

Este estado de coisas que descrevi existe e é bem real (passo a redundância).

Existe, porque uma parte de uma comunidade encontra-se desiludida, frustrada e desmotivada. Leia o resto deste artigo »


Eulogia aos ‘designers da vida real’ [~ 30seg]

É importante escrever sobre os designers na vida real. Aqueles que não têm o emprego de sonho na sua área. Aqueles que têm clientes chatos, clientes ignorantes e trabalhos horríveis ‘para ontem’. Aqueles que lidam com as contas para pagar, com as gráficas, fornecedores e pagamentos fora de horas, ou que nunca acontecem. Aqueles que enfrentam a secretária do Instituto de Emprego a dizer-lhes que ‘não sabemos que a sua licenciatura faz’ e propõe-lhes colocar uma candidatura ou como artista plástico ou como desenhador. Aqueles que estão a fazer estágios, estagiínhos ou estagietas, e não sabem como vai ser o seu futuro nessas empresas. Leia o resto deste artigo »


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