O que significa ‘fazer a diferença’?

Não consigo escapar à efeméride comunicativa sobre a manifestação da ‘Geração (à) Rasca’. Mais ainda porque há cerca de um ano, no pico comunicativo do acontecimento mediático, escrevi sobre a mesma no post, Algumas considerações sobre a etiqueta ‘Geração (à) Rasca’.

Em quase tudo a minha opinião mantém-se igual à desse post. Mas está na altura de ir mais longe nesta conversa.

Primeiro. O fenómeno da ‘Geração (à) Rasca’ marcou um ponto de viragem nas estruturações coletivas de intervenção ou manifestação pública de carácter online. Isto é, através de articulações sincopadas e sequenciadas em ‘redes sociais’, foi possível convocar, num primeiro momento, a aglomeração de várias pessoas, num segundo momento, na provocação de um evento mediático e cultural, isto é, torná-la evento comunicativo, e num terceiro momento, na organização coletiva em forma de manifestação de rua.

Este tipo de fenómeno tornou-se mais amplo e reconhecido na chamada ‘Primavera Árabe’, principalmente no início revolucionário no Egipto. Mas continua no meu ponto de vista, a ser olhada como sorte, ou acontecimento contingente. Isto é, ainda que eventos de algumas ONG’s, estou a lembrar-me da última sobre Kony 2012, baseados numa perceção muito clara de marketing social, é necessário perceber o tipo de intervenção cívica, num contexto comunicativo económico – e isto é que é importante – se pôde ‘mostrar’ (termo técnico) a quem realmente controla o poder económico comunicativo. Isto é, chegou a um momento em que foi impossível o poder comunicativo ‘olhar para o lado e assobiar’ como se não fosse nada.

Contudo, e este é o segundo ponto, tudo se esvaneceu em menos de um mês, tendo só sido agora recuperado, por motivo de efeméride, e logo, de acontecimento ‘historicizado’, isto é, inócuo para os dias de hoje mas como um curiosa recordação do passado.

No meu ponto de vista, a ‘Geração (à) Rasca’ estava desde logo condenada à irrelevância político-económica. Não só porque os argumentos eram fracos, mas também porque a sua visão do futuro passava necessariamente pela fição da ‘vitimização’.

A pressuposição era ‘ Isto é um contrato. Nós aceitámos o correspondente modelo ideológico de progressão social linear de ‘mercado de trabalho’, para vocês (governo, empresas) no final desse percurso, nos darem emprego. Nós fizemos a nossa parte. Façam agora a vossa!’ Isto quanto a mim era estar a jogar em puro efeito. Nunca em causa.

Não foi explorada realmente a oportunidade de iniciar uma transformação coletiva. Ou em termos marxistas, uma revolução na sociedade ideologicamente dominada por uma fição de ‘mercados de trabalho’!

Qual foi a consequência direta. Foi apenas o de fazer surgir na comunicação o advento comunicativo do ‘grande génio português’. Uma versão romântico-neoliberal das capacidades extraordinárias dos nossos concidadãos em vários projetos de caráter artístico e económico. E isto estava a fazer falta, é certo. Mas veio em reação. Mais uma vez, efeito!

Mas qual é o caminho? Bem, não me considero a pessoa ideal para indicar qual é o caminho. Considero-me sim, uma das várias pessoas que permite re-colocar a conversa num ponto de vista da TRANSFORMAÇÃO. Por outras palavras, é necessário contribuir para uma nova conversa sobre transformação, isto porque a dor, a frustração e o medo começam a surgir, já não como sintomas, mas como chagas na nossa comunidade, na qual surge uma altura em que é impossível não responder a!

O meu simples apelo é: Junta-te à Transformação!

Bem haja!


Construímos o nosso próprio destino?? Só podes estar a brincar…

Aquilo que se prende na atualidade sobre as formas da crise e afins tem de nos obrigar a ver, claramente, duas dimensões que permanecem intocadas nos fazedores de teoria dos dias de hoje. Primeiro, a dimensão de que a ‘crise’ enquanto sistema de comunicação se auto-reproduz sem qualquer tipo de consciência necessariamente. Isto é, que a ‘crise’ existe como análogo a forças da natureza, que impele e desloca-se com a sua força sem qualquer preocupação particular. E segundo, a incapacidade de elaborar claramente a correspondência entre a corrente estruturação do que é entendido como ‘o ser-se humano’ e o seu relacionamento direto com esta realidade.

Por outras palavras, a clara noção de que não há nada que, na visão contemporânea acerca natureza humana, esta possa fazer para assimilar determinadas reproduções comunicativas e processuais que se efectuem em relação a si mesmas.

E este tipo de noção tem sintomas. Conjugados num determinado tipo de sentimento que assombra e permeia as nossas vidas em relação ao que é o presente e ao que relativamente é o futuro. Uma vaga sensação de que algo nos está a escapar, a iludir, e não conseguimos realmente apontar para o quê.

Eu como viciado em teoria posso anunciar, em tom de provocação, qual é esta vaga noção. A de que, nós, seres humanos, não controlamos o nosso destino!

Uma das grandes ficções da nossa cultura contemporânea é a de que nós somos os senhores do nosso próprio destino. Pois ainda que tenhamos morto Deus à fome, pelo menos mantivemos aquilo que Ele nos deixou em herança, o livre-arbítrio! Aquilo que em última análise a crença de que eu escolho aquilo que eu quero fazer. “Eu construo o meu próprio destino!”, é a resposta que muitos dão. Na medida em que eu levanto o meu braço para me manifestar, eu decido levantar o meu braço para me manifestar!

Contudo, “eu, tal como Deus, não jogo aos dados, e não acredito em coincidências.” diz “V”, interpretado por Hugh Weaving, no filme V de Vendetta. (Esta frase faz parte do meu vocabulário. Quase que podia resumir todas as minhas teses nesta frase só. Todavia tenho de ser mais elaborado.) Isto é, nós, enquanto seres humanos, somos seres altamente-determinados! O porquê disto fica para outra altura.

Apenas deixo um repto por agora. Se não gostaste do que leste e achas que tens livre arbítrio, escreve algo nos Comentários e expressa a tua liberdade. Se achas que realmente não controlas o teu Destino, então rende-te à evidência, e escreve nos Comentários. Se achas que nada disto faz sentido, então estás ainda mais perdido na ficção do que eu pensava, e isso demonstra que existe muito trabalho a fazer para te libertar dessa ilusão. Bem haja!


Somos todos filhos da pirataria

Cada vez mais cresce o debate entre quais os desígnios económicos dados à política e os desígnios políticos dados à economia. Isto é, cresce no fundo o debate sobre que desenho de selectividade se quer estruturar e implementar nas dimensões sociais.

Os com-bates entre as selectividades neo-liberais, capitalistas e comunistas prometem cada vez mais aquecer o panorama mediático, mas não só. Aproximamo-nos, defendem vários autores, do tipping point (utilizando a expressão de Malcolm Gladwell), onde uma transformação terá de ser operada dentro do sistema auto-referencial. Dentro destes com-bates uma das questões é se o sistema capitalista está morto (ou está em vias de morrer)?

Qual é a pressuposição desta pergunta? Bem, para a podermos fazer, temos de aceitar que o esquema capitalista está em falência (pun) e é necessário um novo esquema de selecção. Mas esta pressuposição remete para uma nova selecção diferente do capitalismo, e admite que até agora que só o capitalismo, no sentido neo-liberal pós-Muro, se manteve activo. Mas se olharmos realmente para a actividade produtiva das partes económicas observamos certas inconsistências e contradições, precisamente no esquema capitalista que o mantêm e o alimentam, fazendo parte da sua auto-reprodução sistémica.

Quero apenas centrar-me no fenómeno da pirataria em relação àquilo que se designa de ‘propriedade intelectual’.

Um determinado tipo de indústria promove a acumulação de capital através da capitalização da propriedade intelectual sobre um determinado produto. A propriedade intelectual aparece no momento em que importância de produtos desmaterializados aparecem ao sistema capitalista, e ao qual este tem dificuldades de colocar um valor de trabalho em algo que se desmaterializa-se.

O problema é que precisamente a desmaterialização juntamente com as revoluções tecnológicas das últimas quatro décadas, coloca o produto à disposição de quem possui a tecnologia apropriada para utilização do produto. Neste tipo de meio de produção a sua característica de iteração do produto passa a ser uma das fontes da capitalização do mesmo.

A pirataria veio destruir esta característica. A pirataria ‘pegou’ no produto desmaterializado e colocou-o à disposição, pendente do acesso tecnológico de uma larga comunidade sedenta de consumir esse produto, mas sem possibilidades (ou desejo) de pagar o valor intelectual dele.

Há quem defenda que esta característica é a subversão do sistema capitalista. A destruição da propriedade privada, em favor da propriedade pública.

Contudo penso que esta situação apresenta apenas uma contradição do próprio sistema económico capitalista. Basta para isto verificar em relação aos produtos mais pirateados, ao mesmo tempo, a sua capitalização e popularidade. Um exemplo, o sistema operativo Windows, nas suas várias versões, não é de todo um fiasco capitalista, muito pelo contrário (chegou mesmo a ser um monopólio contemporâneo), contudo arrisco-me a afirmar que terá sido um dos produtos mais pirateados de sempre.

Por isso, para aqueles ingénuos que andam a tentar promover políticas capitalistas de caça à pirataria, são dogmáticos de um sistema pretensamente económico do valor respectivo pela reposição do produto. Contudo, este fenómeno faz parte do circuito capitalista, com todas as consequências que isto apresenta.

Na minha perspectiva, neste momento somos todos, TODOS, filhos da pirataria. Duvido seriamente que alguém nunca tenha usufruído da ‘pirataria’ para acesso a algum produto. E vou mais longe. Falando pessoalmente, se não fosse a pirataria eu não teria tido acesso a produtos e informações, que de outra maneira, na relativa posição geo-económico-social que me encontro (e a maioria das pessoas em Portugal se encontra), nunca teria tido acesso.

Isto coloca imensos problemas. Primeiro, a ideia de que nós todos estamos, não a subverter o capitalismo das indústrias que se baseiam na propriedade intelectual, mas a ser componentes num circuito sarcástico do próprio sistema capitalista. E segundo, mesmo dentro deste circuito, a suposta defesa comunista ou social da pirataria, além de não perceber a contradição do capitalismo, não percebe que mesmo a usufruição de produtos pirateados não acrescenta, e sublinho, NÃO ACRESCENTA, nada à inteligência ou capacidade intelectual das pessoas que a têm consumido, nem demonstra a tese da subversão do cpaitalismo.

Devemos pensar nisto.

Deixem a vossa opinião nos Comentários. Bem haja!


Algumas considerações sobre a etiqueta ‘Geração (à) Rasca’ [~4min]

Estamos confrontados sociologicamente com um fenómeno que adoptou a etiqueta ‘Geração (à) Rasca’, e este torna-se um fenómeno social na medida em que se tornou num fenómeno comunicativo. Este fenómeno aparece como impossível de contornar pois torna relevante uma tomada de posição em relação a ele (ainda por cima porque tem agora um hino, a música dos Deolinda, que multiplica os media que surgem com referencialidade para a própria etiqueta apresentada, que também se auto-propõe com as referências que supostamente surgem nessa música).

Ora, como qualquer fenómeno comunicativo, este desaparecerá, mas os problemas que supostamente o fenómeno representaria continuarão a subsistir (e já existiam muito antes deste fenómeno surgir). Assim, ao analisar este fenómeno, temos de ter em atenção não só a efemeridade, como também os problemas de fundo que são problemas operacionais e complexos que têm de se ter em conta. Isto serve para ressalvar a tentação teórica de atribuir a culpa, e a possível solução, a um só fator. Leia o resto deste artigo »


Wikileaks, Assange e Informação [~ 2min]

Toda a polémica acerca do cyberactivismo da Wikileaks, e do seu guru, Julian Assange, põe a nu, não as ‘fugas de informação’, nem os inimigos criados por essas fugas, nem mesmo o estatuto de estrela de rock de Assange. Aliás, nem interessa muito sequer a ‘profundidade’ das fugas e o ruído comunicativo por elas gerada. O que esta dinâmica põe a nu é a capacidade de vincular informação, pedaços de informação, de modo a posicionar com elas uma dada posição política. Leia o resto deste artigo »


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